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sábado, 28 de maio de 2016

Nos últimos dias, venho sentindo que estou terminando mais um ciclo da minha História.
Não sei se influenciado por certas mudanças eminentes no trabalho, ou se uma infestação de cupins que me fez tirar um monte de coisas de um armário para esparrama-las mal e porcamente pela casa, sendo que já não havía espaço pela casa para esparramar coisas... Ou se nessa movimentação toda de caixas e mais caixas de objetos que a minha mãe insiste em guardar (ou melhor, acumular) me trouxe de volta um monte de lembranças que vão de desde a minha infância até hoje... Não sei.
De qualquer forma, o destino (se é que isso existe) me forçou a essa estranha recapitulação que me remete a uma infinidade de fases da minha vida que eu nem lembrava mais... e muitas que nem faço lá muita questão de lembrar não.
Tudo tem um fim. E os tempos de vacas gordas (graças ao projeto de falência nacional promovido pelo Foro de São Paulo através do último governo - que aliás, nem devería ter existido), estão nitidamente apontando para digamos... novos tempos.
Coincidentemente, sempre junto com as notícias ruins num campo, vêm as boas em outro, mas nada definido (pelo menos ainda) e é o tipo de indefinição que me perturba, me frustra, me faz ficar pensativo, confuso, me sentindo absurdamente só no meio de um "vazio existencial", mas com uma infinidade de lembranças de tudo o que eu já viví... o que me faz sentir-me como se eu já estivesse morto. Ou talvez eu já esteja mesmo há anos.
Pelo menos, meu cálice de vinho não me dá palpites idiotas e os amendoins aqui do lado me relaxam entre uma degustação e outra enquanto escrevo sobre os azares das circunstâncias que me cercam.
Azares esses que para alguns, pode até ser motivo de piada, mas que me garantem uma certa tranquilidade para me manter estável em meio às intempéries que se aproximam, mais ou menos como no conto "A Cigarra e a Formiga".
Experiência de muitas intempéries... muitas mesmo.
Opto por não lembrar.

A teoria e a prática
"Não sou jovem o suficiente para saber tudo."


Em 2008, eu escreví um texto chamado "Elementos Alienantes - Parte 4: A Indústria do Pseudo-Certificado" e sinto que não escreví tudo o que devería ter escrito sobre o assunto.
Não escreví por exemplo, sobre os preconceitos em relação às pessoas que não têm certificado dito "de nível superior", como se isso colocasse essas pessoas num patamar de "superioridade" em relação às outras, embora muitas dessas pessoas pensam mesmo serem "superiores" por causa disso e com isso, adoram se iludir com "carteiradas" para ganhar discussões, enquanto que na prática, a teoria é outra bem diferente do ensinado no mundo acadêmico e assim, a aparente vitória nessas discussões, em sua imensa maioria culminam em decisões que com o tempo, se mostram catastróficas.
É como rodar um emulador de algum microcomputador antigo, ler todos os manuais dele e ver vídeos sobre como ele é, achando que assim o estará conhecendo profundamente ao invés de ter a experiência real com o próprio hardware e saber que muitos dos bugs que não existem no emulador, podem consistir em elementos físicos como aquecimento, carga estática, sujeira sujeira, lubrificação de partes mecatrônicas, capacitor aberto ou em curto...
Ou seja... enquanto o "teórico" vai achar que é problema de software, o universo pode ser infinitamente maior.
É o tipo de experiência que só se tem, com o contato físico direto ao invés do virtual.
Aliás, o mundo hoje está excessivamente virtualizado. E por trás desse fenômeno, há muitos males além da simples falta da experiência física sobre certas coisas.
Entre elas, a própria História, que deixa de ter vestígios físicos para que os historiadores possam conta-la de maneira mais precisa em relação ao que realmente aconteceu ou como as coisas realmente eram. E é aqui que entra a segunda coisa que eu não escreví naquele texto: os perigos da doutrinação teórica.
Claro que o exemplo mais conhecido é aquele em que um cara humilde que viveu um certo período histórico discorda de um rapaz novo, que estudou sobre aquele período na faculdade e que por ter o título de "nível superior", terá a sua versão da história prevalecendo e assim, a próxima geração não terá mais a referência do cara que viveu aquele período e se baseará na versão sem a experiência, que certamente omitirá os motivos de uma porção de coisas... e assim a história vai se distorcendo geração após geração.
Um fenômeno conhecido como "chinese whispers" (acho que no Brasil, chamam de "telefone sem fio"), numa alusão à famosa brincadeira em que uma criança sussurra uma mensagem no ouvido da outra até que a última recebe uma mensagem nada a ver com a mensagem original. (Nota: hoje a versão mais popular é feita com fones de ouvido e leitura labial. Pois é... Já distorceram até como era a brincadeira original.)
Muito pior do que essa distorção, é quando ela acontece propositalmente e pior ainda, quando sofre atribuições psicológicas. Assim, só se interpretam os fatos como se quer interpretar. (Em Psicologia, o termo técnico para isso é "percepção seletiva".)
É uma perversa versão moderna de lavagem cerebral, que é feita de forma discreta, em doses homeopáticas por décadas, geração após geração.
Assim se formam militâncias incondicionais por uma "causa", invertem-se valores, criminalizam-se os inocentes, glorificam-se os criminosos... tudo com as pompas do tal certificado de "nível superior" e o orgulho abominável de uma nova "raça ariana".
Na boa? Eu prefiro mil vezes, ouvir o que um porteiro de prédio, um quitandeiro, um motorista de taxi que seja... mas que tenha tido experiência, do que um ser categorizado que se orgulha disso, mas que não faz a menor idéia prática das consequências do que diz ou faz.
Mas por outro lado, existem os que estudam para de fato entenderem as coisas, seja por necessidade prática profissional, seja por curiosidade própria.
Esses sim, têm o meu respeito.
Numa analogia, creio que eu poderia dizer que a teoria é um manual grande e complexo em linguagem muitas vezes um tanto vaga enquanto que a experiência é uma enorme caixa de ferramentas que com o tempo, se torna mais e mais organizada, porém, como toda ferramenta precisa de cuidados, de manutenção correta ou lubrificação... esse cuidado chama-se humildade.
Aliás, esteja aí o segredo da sabedoria: humildade.
Eu nunca soube de nenhum homem ou mulher sábio(a) que fosse arrogante.
Nunca ví ninguém construir nada de bom com arrogância.
Talvez nessa nossa analogia, possamos imaginar a arrogância como aquela sujeira que fica sobre as ferramentas e que nos impede de ver que elas precisam de cuidados, ou que elas podem estar danificadas, porque a arrogância sempre nos faz crer que estamos além de nossos limites reais e assim, nos dá uma falsa confiança.
Muita ferramenta quebra, ou é utilizada de maneira inapropriada dessa forma.
Se os(as) leitores(as) aceitam conselhos (e eu me refiro especialmente aos jovens agora)... sejam humildes antes de tudo!
Jamais ridicularizem nada nem ninguém.
Porque tudo o que você sabe ou pensa que sabe, pode não ter experimentado nas condições que alguém já o fez.