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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Conforme recomendações da Ampex, rebobino minhas fitas magnéticas pelo menos uma vez a cada 3 anos (costumo fazer isso todo ano por via das dúvidas) e nessas de rebobinar velhas fitas (hoje, de filmadora), esbarrei com velhas imagens de férias, viagens, festas, formaturas...
É estranho como não me identifico mais com essas lembranças.
Tanta coisa registrada e tão pouco significado por trás disso...
Foi-se a época em que eu ainda sentía alguma emoção nessas coisas. No máximo, um sentimento de saudade de momentos que já se foram e a certeza de que não mais se repetirão.
Me pergunto se viver por momentos que ficarão lá, perdidos no passado, esquecidos como imagens em velhas fitas de vídeo abandonadas num armário vale a pena.
Viver por emoções, cujas lembranças se apagarão com decepções, certamente não passa de perda de tempo.
Ainda que sejam momentos raros em meio a tanto trabalho, rotina, correrias do dia-a-dia enquanto o tempo vai passando cada vez mais rápido e você se vê cada dia mais decepcionado(a) com esse tipo de recordação que apesar de ter feito parte da sua vida, não significa praticamente nada pra você e assim, você conclui que sua vida é praticamente nada além de lembranças.
Estou cansado de viver por decepções. Cansado de acreditar em ilusões. Cansado demais para planejar mais sonhos para me iludir e me decepcionar.
Espero que minha vida tenha servido para alguma coisa de bom ainda que seja apenas uma mera lembrança boa, pelo menos para alguém que mereça.
Faz muito tempo que sinto vontade de escrever um certo diálogo imaginário que certamente poderá causar tanta polêmica quanto comoção e não quero ser responsável pelo "mimimi" que isso pode provocar, mas cheguei à conclusão de que eu tinha de pelo menos tentar.
Aqui vai...


Entrevista... com Deus?
"Se é certo que um Deus fez este mundo, não queria eu ser esse Deus: as dores do mundo dilacerariam meu coração."


Sei que pode parecer estranho um agnóstico escrever um texto desse tipo e é obviamente uma entrevista imaginária, com um ser imaginário conforme o imaginado pela imaginação daqueles que acreditam redundantemente nesse imaginário coletivo ensinado de geração em geração há milênios a ponto de as pessoas poderem afirmar categoricamente que esse ser é isso, ou aquilo, que isso ou aquilo agrada ou não a Deus (qualquer que seja o nome que a denominação religiosa pregar), com tanta convicção, como se fossem o próprio Metatron falando ou escrevendo, quando na verdade, não passam de meros mortais assim como eu, que não passam de absolutos incompetentes diante da grandeza de um suposto Ser de tamanha superioridade em todos os sentidos imagináveis além do tamanho do Universo. (E olha que estou me referindo apenas ao Universo conhecido pela nossa Ciência atual. Nem estou falando em Universos paralelos ou dimensões desconhecidas* ou realidades espaço-tempo alternativas ou ainda quaisquer outras coisas desse naipe!)
Mas vamos supor que, remotamente (bem remotamente), o tal "Ser Superior Supremo Absoluto", resolva aceitar participar de uma entrevista despretenciosa em linguagem bem simples, um "bate-papo" informal e inspirar um descrente como eu (e obviamente neutro em questões de crenças religiosas) a transcrever o diálogo?
Será que seria um diálogo "inspirado por Deus" como os crentes afirmam que seus textos sagrados o são? Ou teriam os mesmos preconceitos que têm sobre os Evangelhos Apócrifos, por exemplo?
Será que tem como imaginar como seria esse diálogo entre o Ser Criador onipotente, oniciente e onipresente e uma criatura insignificante, porém humilde em reconhecer a própria incompetência em relação a um ser tão além dos limites humanos?
O quê mais posso fazer além de pedir por essa inspiração antes de escrever sobre como este Ser realmente é (ao invés de como as religiões pregam) e ver o que acontece?

(Pausa de um dia aqui...)

- Você está aí Deus? Posso chama-lo assim?
- Eu estou por toda parte, sou onipresente, lembra? E como estou inclusive em você, pode me chamar do que quiser, inclusive de imaginação, amigo imaginário, ou outros nomes que você já citou nesse seu blog.
- Bom, como tu és também oniciente, conforme dizem, o Senhor certamente já sabe todas as perguntas que eu poderia fazer assim como todas as respostas e certamente entende que só para efeito de registro, tenho de formular as perguntas e registrar as respostas como num diálogo comum, ou imagino como ficaria complicado registrar esse tipo de entrevista aqui.
Se é mesmo o Senhor que está aqui, falando comigo ou pelo menos me inspirando a escrever essas palavras enquanto registro essa entrevista, como vou saber?
- Não vai. Sua condição humana como você bem costuma dizer, está muito aquém de compreender o quê eu sou ou o que vem a ser "fé", que vocês humanos infelizmente confundem com "acreditar incondicionalmente", se afastando de seu aprendizado de sabedoria ao invés de observar, refletir e aprender. A "fé" como pregam, os tornará preconceituosos e intolerantes. É muito triste isso.
Quanto a me chamar de Senhor, eu sei que você sente uma certa dúvida nesse sentido, já que gênero não faz a menor diferença no meu caso. Pode me chamar de você se isso lhe fizer se sentir mais confortável. O mesmo vale para esses "floreios" desnecessários como "tu és"... Você não fala desse jeito normalmente! Seja natural! Seja você mesmo! Relaxe!
- Bom... Confesso que é meio complicado relaxar quando se escreve sobre um Ser tão superior quanto incompreensível que eu não posso afirmar se existe ou não, ou se é fruto da minha imaginação, especialmente em tempos em que tudo parece ser ofensivo para alguém. A meu ver, a humanidade está mentalmente doente.
Notei que o... você (risos), encontrou um jeito de aproveitar uma brecha para deixar um recado inserido na sua última resposta. Por quê?
- Como você mesmo disse, a humanidade está mentalmente doente. Muito doente. E são muito poucas as oportunidades que tenho de conversar verdadeiramente com um humano, apesar da imensidão de religiões e igrejas e congregações e pastores e líderes e quase todos farsantes que pregam tudo, menos tolerar e respeitar.
Não conseguem compreender que seu poder de união encontra-se na diversidade, não na igualdade.
Vocês não são feitos todos com características diferentes desde que nascem até quando morrem à toa! Cada um de vocês, tem uma função, um aprendizado para acumular em suas experiências de vida e sofrem porque querem sempre que as pessoas próximas sejam-lhe idênticas simplesmente porque é mais fácil compreende-las assim.
- O quê exatamente temos de aprender durante a vida? Por quê vivemos?
- Primeiro é preciso compreender que a vida como vocês conhecem, não passa de uma ilusão em função do tempo e seus aprendizados e experiências vão se acumulando ao longo dessa ilusão até o dia em que se libertarem do tempo.
Enquanto estiverem presos ao tempo e ao espaço, jamais conseguirão compreender o valor do que vocês chamam de "vida", como material de observação, experiência e reflexão.
Deveríam se preocupar mais em observar mais, criticar menos, refletirem mais, julgarem menos.
Apesar de ilusória, a vida é um desafio de sobrevivência. E não é combatendo uns aos outros, criticando uns aos outros, ridicularizando uns aos outros que vocês conseguirão a união necessária para sobreviverem.
Muitos como vocês já se extinguiram por causa disso.
- Essa conversa até parece coisa de ficção científica e até já ví alguns onde existem seres que não vivem no tempo linear como nós, humanos e que eram tratados como divindades. A vida para nós é uma provação? É isso?
- Mais ou menos. A honestidade vai definir quem vocês realmente são. Não há muito o que se possa dizer sobre isso de modo que vocês compreendam ainda.
- OK... Vamos para outro tópico... Quem sou eu para insistir com Deus? Hahaha!
Os ditos "textos sagrados"... Bíblia, Alcorão, Talmud, etc. foram mesmo inspirados por você conforme dizem?
- Definitivamente não da forma como vocês os têm hoje.
Vocês se preocupam muito mais com interpretações do que escreveram do que em serem o que eu "inspirei", se é que essa é a palavra mais adequada para descrever isso.
Deveríam esquecer todos esses livros e sentirem mais o mundo à sua volta, aprenderem mais com animais mais pacíficos entre os membros da mesma espécie como os gorilas, sentirem mais a brisa e a chuva, abandonarem seus preconceitos e críticas uns aos outros e viverem as melhores e mais saudáveis experiências que tiverem oportunidade de ter.
Mas sejam conscientes nessas experiências, ou elas não terão nenhum valor.
- E o diabo? Ele existe?
- Tanto quanto qualquer pessoa que esteja lendo seu blog agora, inclusive você.
Se eu sou tudo, sou você, sou quem lê este blog, sou ele...
Entenda... O bem e o mal, são aspectos opostos de um todo. Um não existe sem o outro, ou não haverá um equilíbrio.
Se não existe o ruim, como valorizar o que é bom? E como compreender que o muito bom, atrai o ruim e vice-versa?
O equilíbrio consciente é sempre a chave para a serenidade.
- Eu costumo dizer que já estive no inferno. Há quem duvide como já era de se esperar. Eu mesmo não sei o que foi aquilo, mas me tornei estranhamente insensível a certas coisas e procuro fugir de tudo o que entendo hoje como uma ilusão e que as pessoas que não passaram por isso, eu duvido que um dia entendam.
Foi uma vislumbre de consciência absolutamente triste, mas estranhamente frio.
Por quê tive de passar por aquilo?
- Se não tivesse passado por aquilo, teríamos oportunidade para essa conversa ou você estaria ocupado fazendo outra coisa agora?
Não se preocupe com isso.
Tudo tem um motivo como você bem sabe e todos os motivos estão interligados.
Você está certo de fugir de ilusões. Elas só trazem desilusões. (Gostou da rima? É bem o seu estilo, né?)
Agora imagine o tipo de desilusão que terá, quem só vive plantando ilusões?
Se dizem que "a justiça divina tarda mas não falha" e que "Deus escreve certo com linhas tortas", talvez haja um motivo, não?
Observe que mesmo depois de tudo, sua reputação permanece e permanecerá impecável enquanto você continuar honesto.
Sabe por quê você se deprime com ilusões? Porque você descobriu que não precisa delas e que elas não passam de perda de tempo e desilusão.
Aposto que depois daquela experiência você se sente surpreso em como você consegue identificar fácil essas ilusões, né?
- Confesso que estou sem palavras.
De repente, me sinto mesmo conversando com algum tipo de consciência superior, mas ainda não consigo deixar de pensar que isso é fruto da minha própria imaginação.
- É melhor que seja assim. Que você tenha essa consciência dessa forma.
Pouca gente tem essa consciência. Se quiser, pode chamar isso de "oração".
- Muito obrigado pela entrevista.
- Sou sempre.

Nota: Já se passaram 2 horas e eu ainda estou perplexo com esse texto.
Tudo bem que é mais fácil entende-lo como uma obra fictícia, mas de certa forma, faz pensar se não temos mesmo alguma forma de consciência em nossas próprias mentes que nós ainda não entendemos?
Melhor deixar as especulações para os(as) leitores(as).

* Cara... eu adoro essa explicação de dimensões do Carl Sagan!
Divertida e genial!