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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Por confiarmos num futuro, construímos um belo castelo.
O mais lindo castelo de de sonhos que já se viu.
Então veio um cão raivoso e com sua fúria, destruiu nosso castelo e entregou nossos preciosos sonhos ao vento, que os levou para si.
Agora, não restaram nem confiança num futuro, nem castelo, nem a areia do qual ele era feito.


Virtualização
"Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos mudá-la."
(Bertolt Brecht)


Segundo as evidências científicas atuais, acredita-se que os primeiros organismos vivos na Terra, teriam surgido há cerca de 3,5 bilhão de anos atrás.
É impossível saber o grau de conciência que esses seres unicelulares que mal faziam fotossíntese poderiam ter. (Embora seja mais ou menos o mesmo de alguns arrogantes macacos modernos que se julgam conscientes... pobres mentes insanas!)
OK, é mesmo muito difícil imaginar 3,5 bilhão de anos de evolução da consciência até a moderna consciência humana, mas a ciência moderna consegue estimar com a precisão do mapeamento molecular do genoma (pelo menos desde 2003), cada mínimo passo de sua evolução biológica, consagrando o trabalho de Charles Darwin, (antes tido como revolucionário e "perigoso" demais para o seu tempo) como um dos mais exatos e completos da história humana.
E com cada um desses passos, veio uma nova experiência, uma nova adaptação e assim, sucessivamente até que uma, das três espécies de chimpanzés atualmente conhecidas pela Ciência, começou a fazer relações entre as coisas e a pensar, fazendo nascer aí, o pensamento. E com ele, o raciocínio, a arte, a cultura e os interesses. E com os interesses, a corrupção do raciocínio, da arte e da cultura para que os interesses prevaleçam à todo custo... (E que custo!)
Com o raciocínio, com a arte e com a cultura, se desenvolveram os valores humanos.
Valores esses, inestimáveis, resultado de 3,5 bilhão de anos de evolução da vida neste planeta, até então, o único que conhecemos contendo vida inteligente, o que faz da nossa espécie, talvez uma das mais carentes do universo (assumindo que certamente existem outras formas de vida inteligentes no universo conhecido, mas que ainda desconhecemos e que certamente também têm seus valores culturais assim como nós).
E por sermos uma espécie carente, decidimos preservar a consciência desses valores sob a forma de escrita, de música, de escultura... enfim, de arte, de cultura para assim, podermos compartilhar um pouco do que somos uns com os outros, numa tentativa desesperada de quebrarmos a barreira do tempo, imortalizando nossas experiências de vida para que as futuras gerações possam aprender com elas, e assim, crescerem, se desenvolverem, sem precisarem por exemplo, enfrentar os tipos de conflitos e dificuldades que nossos antepassados tiveram de enfrentar, como guerra, fome, ditaduras, governos tiranos, fuzilamentos de inimigos políticos, registros mentirosos na história em função de propaganda política, etc.
Só que como todo esse material ocupa muito espaço físico, nós, com nossa brilhante engenhosidade, inventamos um jeito de armazenar tudo isso, virtualizando através da digitalização, transformando praticamente tudo o que podemos em dados simbólicos, assépticos, facilmente replicáveis, compartilháveis e armazenáveis, de modo a ocupar muito menos espaço físico.
Podemos ser a última geração que leu livros de papel, que ouviu discos de vinil, que viu projeção cinematográfica de película, que usou dinheiro de papel.
E agora, na correria desenfreada pela sobrevivência altamente competitiva do mundo moderno, estamos virtualizando nossas economias, nossas conversas, nossos amigos, nossas paixões, nossos amores... e no desespero cada vez maior pelo armazenamento seguro disso tudo, virtualizamos nossas vidas e as estamos confiando à tal "núvem", que à princípio representa enormes datacenters com seus dados replicados de forma altamente segura e redundante espalhados pelo mundo.
Só que esses datacenters têm dono e custa caríssimo guardar e gerenciar tudo isso.
Hoje, os donos do mundo, são os donos do dinheiro, que aliás, foi uma das primeiras coisas a serem virtualizadas e guardadas na tal "núvem".
E muito em breve, os donos da "núvem", serão os donos de tudo o que a vida neste planeta fez, nos últimos 3,5 bilhões de anos e poderão inclusive, contar toda essa história como eles bem entenderem, bastando mudar os dados da núvem ao seu bel-prazer.
Não haverá mais privacidade, não haverá mais liberdade, não haverão mais sonhos, nem amores, nem vida.