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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Este ano tem sido para mim, um ano de aprendizado pessoal ímpar, em que enfrentei com uma firmeza que surpreende a mim mesmo, obstáculos emocionais que em outros tempos, teria sucumbido com facilidade, porém o preparo de vários anos após várias experiências traumáticas do passado, me mostraram o caminho que eu deveria seguir e de que maneira seguir esse caminho.
Caminho esse que todas as ciências, religiões e "livos sagrados" com os quais tive contato, fracassaram em me preparar.
Porém, uma única frase, dita por um homem há muitos anos atrás (acho que foi em 1978 ou 1979), quando eu ainda era uma criança, mudou tudo.
Era um homem bastante conhecido em minha terra natal (Mogi-Guaçú), como "celeiro", dada a sua profissão de fazer celas para cavalos, bem como também sapateiro e consertador de guarda-chuvas.
Era um homem muito simples, sem grandes ambições, mas que fazia tudo com muita certeza (e até com uma teimosia que estou para ver maior), que muitas vezes era difícil entender de onde vinha, mas hoje o entendo.
É verdade que nem sempre ele estava certo, mas na esmagadora maioria das vezes, ele acertava... Talvez pela simplicidade, pela organização, ou talvez por buscar sempre coisas muito práticas, funcionais e resistentes, embora nem sempre fossem coisas de aspecto "bonito". Enfim...
Quando ele faleceu, foi obviamente um dia muito triste para mim e ainda me lembro de ajudar a carregar seu caixão, pois foi a única vez que fiz isso.
Esse homem, era meu avô e certamente o homem que mais inspirou o meu caráter, mas eu nunca tinha entendido por quê aquela frase tinha me marcado tanto na minha infância, nem como o meu avô tinha conseguido fazer com que ela ficasse gravada em minha mente com tanta firmeza até este ano.
Como ele me ensinava sempre que tudo tem uma razão de ser, a tal frase, não poderia ser diferente.
Compreender a profundidade e a grandiosidade desta frase, foi o maior tesouro que eu posso dizer que herdei dele.
O texto de hoje é inteiramente dedicado a esse homem simples, praticamente esquecido pelo tempo, porém de uma alma inacreditavelmente brilhante, em que tentarei explicar a profundidade e a importância da tal frase e portanto, nada mais justo que coloca-la em destaque sob o título do texto de hoje.

Digo "tentarei", porque tenho absoluta convicção de que falharei nessa tentativa, pois em meio ao imediatismo do mundo moderno, não é mais costume tentar compreender conjuntos de conceitos abstratos tão profundos, pois faltam-lhes um contato maior com o Universo, com a Natureza, com a observação do mesmo com respeito e humildade. (Já notaram como em quase tudo o que publicamos hoje sempre tem alguém tirando sarro, ou tentando corrigir meramente para "aparecer" ao invés de buscar aproveitar algo disso, mesmo que esteja errado? Pois é.)


Consciência

"Antes da Ciência, é preciso ter Consciência."
(Antonio Fernandes Cortez - 28 de outubro de 1902 a 26 de abril de 1988)


Entre a "eterna" discussão entre a religião e a ciência, existe um universo filosófico ignorado.
Enquanto de um lado, os religiosos (incluindo os ateus e agnósticos) batalham inutilmente entre sí para provarem "quem está certo" ou "quem está errado" e do outro, os cientistas disputam teses e antíteses fazendo com que nosso entendimento dos mecanismos do universo se aprimore a cada nova descoberta (consequentemente dando orígem a novas perguntas), o choque entre as novas descobertas da Ciência e as convicções tradicionais das religiões torna-se mais do que óbvio e a cada nova descoberta, levantam-se vários religiosos bradando que estavam certos enquanto outros, embora derrotados pelos argumentos, não se dobram às tradições e costumes, afinal de contas, essas tradições e costumes se tornaram sua própria essência de vida.
Ora, o ponto-chave aqui (e o que pretendo com esse texto) não é apontar quem está certo ou errado, mas tentar mostrar o meu jeito de compreender os mais diversos pontos de vista, com respeito e humildade de modo a não impormos o que acreditamos, ou estaremos assim, sendo arrogantes e estúpidos sem percebermos e pior: abrindo mão de compreender os motivos das divergências das pessoas de convicções diferentes das nossas.
Impondo nossas convicções, idéias e costumes sem compreender as dos outros, é agir inconscientemente, ou seja, sem consciência, em nome meramente do que estamos condicionados.
Em outras palavras, quando estamos condicionados, agimos sem consciência disso.
E esse condicionamento não é restrito apenas a questões religiosas, mas também em questões políticas, artísticas, filosóficas.
Observem que em todos esses casos, sempre temos a tendência de impôr nossos valores como se fossem os únicos existentes e o fazemos o tempo todo.
Pois bem, então somos todos inconscientes... porém, à partir do momento que paramos de nos impôr e passamos a observar cuidadosamente, humildemente procurando compreender, estamos dando uma chance à Consciência para que ela se desenvolva.
Ora... A Consciência não é uma divindade inalcançável, não é um inimigo de nossas convicções, não julga nem faz julgar, não mata, enfim... não tem nada de ruim nela. Ao contrário, a Consciência nos aponta o caminho para tudo de melhor e mais humano que todas religiões pregam (embora nem sempre pratiquem) e ao mesmo tempo abre espaço para abranger o que há de melhor na Ciência.
A Consciência, é talvez o mais universal, elementar e simples de todos os conjuntos de ensinamentos humanos de qualquer lugar da Terra, podendo ser praticado por qualquer um, polítizado, filósofo, religioso ou não (incluindo ateus e agnósticos) e consiste apenas em três ensinamentos simples (escreví esses princípios como se fossem o meu próprio "livro sagrado"):
  • Acreditar na Consciência, é respeitar as crenças e convicções das pessoas sem tentar mudar o que acreditam, pois cada um de nós tem uma experiência de vida diferente e consequentemente, valores diferentes que fazem parte da própria essência de cada um e abrir mão desse respeito seria ignorar o tesouro da diversidade de pensamentos e de experiências existentes em cada ser humano.
  • Viver com Consciência é basear sua própria existência de vida em 7 princípios que regem a Verdade e a Justiça, ou seja: a honestidade, a sinceridade, o respeito, a humildade, a fidelidade, a integridade e a dedicação.
  • Ser uno com a Consciência é compartilhar harmonicamente desses 7 princípios, cultivando-os, desenvolvendo-os e ensinando-os apenas com a prática dos mesmos e sem abusar dos mesmos (ou seja, sem usufruir deles sem repô-los) sob pena de quebrar o equilíbrio desta harmonia.
Enfim... A Consciência (sob a sua forma mais pura, ou seja, em plenitude desses 7 princípios citados), nos mostra o caminho, nos ensina, nos dá certezas, nos acalma, nos conforta, nos dá confiança... mesmo que todos os elementos em nossa volta se apresentem contrários.
Mas como tudo no Universo tem dois lados, um ser "consciente" sofre com a presença de qualquer um dos 7 princípios opostos, ou seja... a desonestidade, a falsidade, o desrespeito, a soberba, a infidelidade, a desonra e o descaso.
Se aplicarmos essa forma de ver o mundo à vida cotidiana, por exemplo, na convivência entre duas pessoas, é mais do que esperado que essas pessoas que adquirem o hábito de praticar constantemente esses 7 princípios se dêm bem e vivam em perfeita harmonia, independente dos "rótulos" culturais, políticos, filosóficos ou religiosos que tenham.
Porém, basta que um desses princípios falhe em uma dessas pessoas para que a outra sofra nessa convivência.
Esse exemplo que acabo de citar, eu testemunhei entre meus avós, que conviveram a maior parte de suas vidas numa harmonia que ainda estou para ver em qualquer outro casal.
Para mim era bastante óbvio que ambos praticavam esses 7 princípios e os compartilhavam lindamente entre sí.
Era bonito mesmo ver que após todos aqueles anos juntos (61, se não estou enganado), mesmo com as dificuldades da idade, meus avós namoravam até o último dia de vida do meu avô.
Minha avó, faleceu apenas dois anos depois, mas carregou consigo, uma experiência de vida que para mim, é uma arte talvez impossível de ser praticada nos tempos modernos, em que mesmo em nome da Consciência (ou seja lá o nome que melhor convier às convicções de quem lê esse texto), têm de-se disfarçar os 7 princípios por pressão social, para evitar preconceitos, ou "manter as aparências".
Aprendí a lição dos meus avós, embora tenha levado muitos anos para compreende-la, sou profundamente grato pela frase "Antes da Ciência, é preciso ter Consciência", proferida pelo meu avô enquanto eu ainda era criança e me esforço ao máximo para me tornar uno com a Consciência como sei que um dia conseguirei, ainda que sozinho, ainda que eu seja o último que ainda pratique essa arte.
Bom... Talvez dia eu encontre alguém que também pratique esses princípios e quero crer que essa pessoa exista (talvez alguém que ainda nem tenha percebido o valor que ela tem por causa disso) e se pudermos compartilhar desses princípios, sem meramente usufruirmos da boa vontade um do outro nessa prática, talvez essa arte não esteja afinal, perdida como imagino.

Em memória de Antonio Fernandes Cortez (falecido em 26 de abril de 1988, com 86 anos) e em honra de Benedita Maria de Jesus Cortez (falecida em 23 de maio de 1990, com 78 anos).