Translate

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Não sou enólogo, nem pretendo ser... No máximo um cara que gosta de apreciar um bom vinho enquanto escreve sem se preocupar demais com seus detalhes... (Já tenho muita coisa na cabeça para me preocupar ultimamente)
E o vinho de hoje é o suave Viña Maipo - Carmenere, safra 2010, proveniente do Valle Central - Chile.
Um vinho bem novo, portanto não está "obsoleto", embora tudo o que já passou de 1 ano hoje, o povo já considera obsoleto sem sequer avaliar o por quê.
Se as regras da sociedade de consumo se aplicassem à arte, já teríamos queimado todos os quadros de DaVinci e Van Gogh como já fizeram com os livros dos países ocupados pelos nazistas.
Durante o mês de junho, não publiquei sequer um único texto neste blog, no entanto foi um dos meses em que ele recebeu mais visitas este ano, o que indica que ele ainda não está obsoleto.
Aliás, o texto de hoje é exatamente sobre isso...



Obsolescência
"Logo que, numa inovação, nos mostram alguma coisa de antigo, ficamos sossegados."
(Friedrich Nietzsche)


É bastante nítido que absolutamente nada no mundo atual é de fato, feito para funcionar, resolver ou satisfazer. As coisas hoje são todas feitas única e exclusivamente pelo lucro.
Mês passado, uma lâmpada fez aniversário. Uma lâmpada que está acesa há 110 anos, o que dá pelo menos 936600 horas, fazendo parecer patética qualquer lâmpada "moderna" e "sofisticada". E olha que estou me referindo a essas lâmpadas eletrônicas que prometem durar 8 anos de acordo com a embalagem, mas que têm garantia só de 1 ano e dizem na ficha técnica que são feitas para durar 8000 horas (só que um ano tem 8760 horas, se não fôr bissexto). Mas patético mesmo é aquela outra lâmpada que promete durar 6 anos desde que se use apenas 2 horas por dia. Ridículo!
Mesmo a mais sofisticada lâmpada líquida de LED que promete durar 45000 horas não chega aos pés da lâmpada centenária do Departamento de Bombeiros de Livermore.


Obsolescência Programada ou Obsolescência Planejada

Mas acredite, já foi pior. Pouco tempo depois da época em que essa tal lâmpada centenária foi acesa (em 1901), os fabricantes de lâmpadas (muitos deles se gabavam da durabilidade das mesmas acima de 2000 horas) se reuníram para estabelecer um tempo de durabilidade padrão para suas lâmpadas e assim, garantir continuidade de vendas. Tempo estabelecido: 1000 horas, o que foi conseguido em 1940. E qualquer um dos fabricantes que "furasse" esse padrão pagava uma multa pesada.
Esse tipo de planejamento para limitar a vida útil de algum produto é conhecido como "obsolescência programada" ou "obsolescência planejada" e hoje se extende a praticamente qualquer produto comercializado, tornando obsoleto o termo "bem durável".
Até bem pouco tempo atrás, houve a polêmica sobre um certo tocador de MP3 muito popular, conhecido (e caro) que o fabricante projetou para que sua bateria jamais fosse trocada. Só que sabemos que a vida útil das baterias (inclusive as recarregáveis) é limitada, então... o quê fazer do aparelho? Simples: jogue-o fora e compre um novo. O fabricante oficialmente não lhe dava a opção de substituir a bateria, causando uma bela polêmica internacional e tomando um belo processo judicial conjunto por parte dos consumidores.
Aliás, no mundo dos aparelhos eletrônicos, a obsolescência programada é frequentemente observada nos fóruns de audiofilia pela Internet, em que os audiófilos estão (aos montes) preferindo restaurar equipamentos vintage do que comprar qualquer aparelho de som moderno (e ainda se dando ao luxo de se gabar de seus conhecimentos sobre o aparelho ou de ter aprendido mais sobre ele... eu, inclusive).
De fato, é muito mais inteligente pagar uns R$400,00 por um aparelho que poderá durar uns 25 anos do que R$100,00 em um "equivalente" que só durará no máximo 2. (Exercício: Faça as contas e veja qual saiu mais barato por ano de uso!)
Esse tipo de inteligência é um exemplo bem simples de prática do que se chama "consumo responsável".
É o que nos faz, por outro exemplo, preferir um aparelho compatível com as mídias que funcionavam no aparelho anterior, a chamada "compatibilidade reversa".


Obsolescência Percebida ou Obsolescência Perceptiva

"Ah, mas aparelho antigo é velho, é grande, feio, pesado, porcaria (ou qualquer outro adjetivo pejorativo que vier à mente)..." Aqui entra um outro fator conhecido no mundo do marketing como "obsolescência percebida" ou "obsolescência perceptiva".
Experimente pegar algum aparelho de telefonia celular beeeem antigo, (que ainda seja compatível com seu chip GSM) e saia com ele para algum lugar cheio de gente com quem você possa conversar e observe a cara das pessoas ao ver o aparelho. Especialmente se você disse que gosta do aparelho e acha ele ótimo.
Alguns vão lhe dizer para "comprar um novo", mesmo que você não tenha necessidade alguma, ou pior - tenha de pagar por recursos que não vai usar, como o BlueTooth num iPhone, que é absolutamente inútil.
Tenho por exemplo, um carro fabricado em 1992, que supre minhas necessidades perfeitamente e o mecânico diz que não compensa troca-lo por outro carro que não seja zero. Aliás, segundo ele, tem muito carro zero que não durará tanto, nem terá o mesmo desempenho e não me deixará satisfeito dado o meu perfil de uso. No entanto, tenho uma amiga que diz para eu comprar "um carro de verdade".
Bom... tenho uma outra amiga que comprou um carro zero. Não sei se ela ainda está pagando por ele (isso foi a um ou dois anos) e ela definitivamente não está satisfeita com o carro, o que me faz repensar seriamente os meus planos de trocar de carro.
Aliás, carro hoje é tudo descartável também. Nem de longe é um "bem durável", embora o "governo" (se é que podemos chamar assim e é por isso que neste blog sempre me referirei a ele entre aspas) insiste em nos cobrar imposto de renda sobre isso.
A Indústria da moda é uma das que mais usam e abusam da obsolescência percebida... na verdade, ela depende inteiramente disso. (Por isso as mulheres torram quase todo o dinheiro que têm para comprar roupas, sapatos, acessórios, etc. e assim se sentirem inclusas na sociedade. Se vestirem alguma roupa que era moda nos anos 80 será taxada de "brega" pelas outras.)


Um pouco de História

Mas voltando aos fenômenos da obsolescência programada e da obsolescência percebida, esses dois fenômenos são a essência da sociedade de consumo e nasceram nos anos 30 através de um cara chamado Bernard London, autor do livro "The New Prosperity" ("A Nova Prosperidade"), que declarava obrigatória a obsolescência programada, para acelerar a economia doe EUA. O título do primeiro capítulo já era entitulado "finalizando a depressão através da obsolescência programada".
A idéia era a de que todos os produtos após um determinado tempo de uso, seriam declarados legalmente "mortos" e deveriam ser encaminhados à uma instituição governamental para serem destruídos.
Mas a tal da obsolescência progamada só foi realmente posta em prática nos anos 50, graças à propaganda, instituindo pela primeira vez a obsolescência percebida, através da qual os consumidores eram convencidos a desejarem continuamente, produtos mais novos, aparentemente "um pouco melhores", ou "um pouco mais bonitos" ou "um pouco mais novos" do que o necessário.
Surgiram aí o design industrial e a Indústria da moda.
O designer Clifford Brooks Stevens ficou famoso com seus discursos dizendo que "a antiga idéia industrial européia de fazer os melhores produtos capazes de durarem para sempre" estava obsoleta e que o enfoque americano era criar um consumidor permanentemente insatisfeito e apto a buscar e consumir sempre o produto mais novo, mesmo que não precisasse disso.


Conseqüências

Se por um lado esses dois fenômenos são o motor da economia, gerando empregos e movimentando o comércio, são também o óleo sujo que polui nossos rios, a sucata que entulha os países pobres onde o lixo dessa sociedade está sendo descarregado e as empresas que praticaram esses fenômenos já há tanto tempo, não têm moral para dizer que são "bonitinhas" e "politicamente corretas" usando e abusando de termos como "sustentabilidade" ou "preservação do meio-ambiente", que na verdade prática, não passam de uma bandeira de marketing para alavancar vendas, como qualquer outro papo de vendedor.
Mas o prejuízo não pára por aí. Não afeta apenas o nosso habitat, ou o nosso meio-ambiente como todos o material que ví enfatiza.
Afeta diretamente uma outra questão importante... ligada à cultura, mais precisamente aos registros históricos.
Certa vez, um amigo meu, que na época trabalhava no Centro de Memória - UNICAMP, comentou que existe um fator grave e bastante polêmico no meio acadêmico, sobre o arquivamento de registros virtuais (vulgo "digitais"), já que estes independem da mídia de armazenamento original e por isso mesmo podem ser facilmente manipulados, perdendo seu valor de pesquisa histórica, já que não podem ser validados como autênticos.
Um exemplo mais popular e próximo da nossa realidade de cidadãos comuns, são os filmes... lembra do VHS? Pois bem. Uma boa parte do material que foi comercializado em VHS simplesmente não existe em DVD (às vezes até existe, mas com qualidade de som e imagem bastante sofríveis) e olha que estou falando de filmes famosos, que causaram muita diversão em suas épocas ou de séries que se tornaram cult.
Pois bem... agora tem o Blu-Ray e muito pouca coisa que surgiu em DVD existe na nova mídia que já nasceu morta, já que o HVD já existía e logo logo virá para o mercado consumidor.
São filmes que se perderão para sempre.
Você nunca poderá se divertir vendo "Gremlins 2" ou a comédia romântica "Admiradora Secreta" ou "A Mulher Nota 1000" (que pelo que até onde eu saiba, não foram lançados em DVD no Brasil) e terá de se contentar com os péssimos remakes hollywoodianos atuais ou baixar versões pirata dos filmes originais ilegalmente na Internet. (As políticas de copyright já passaram mesmo da época de serem revisadas. Tem muita gente faturando sobre coisas que não produzem e restringindo inclusive divulgação sobre o que têm direito sobre...)
Seus filhos nunca verão o Ultraseven decepando cabeças de monstros alienígenas porque no momento atual isso é "politicamente incorreto" (a menos que você more no Japão, onde o herói fictício é considerado um patrimônio nacional, bem ao contrário do nosso Capitão Aza ou Vigilante Rodoviário), nem se divertirão com a inocência de desenhos como "Os Impossíveis" ou "Hong Kong Fu".
Ou seja, em apenas 40 anos toda cultura pop de uma geração já pode estar praticamente condenada. Que dirá das produções caseiras, que poderiam nos dizer sobre a evolução arquitetônica de um prédio ou que tipo de roupas se usava naquela região e por quê?
Já dá para imaginar os arqueólogos de daqui uns 2000 anos, encontrando em alguma escavação, algum boneco do Batman e acharem que se trata de algum "deus do povo da antiguidade".



Vídeos altamente recomendados para quem leu este texto ou está com preguiça de ler

La Historia Secreta de La Obsolescencia Programada (em espanhol), o vídeo que inspirou este artigo.
A História das Coisas (dublado em português), um famoso vídeo de Annie Leonard que deveria ser obrigatório nas escolas.


Se você gostou deste texto, aproveita já para deixar seu comentário antes que ele fique obsoleto, clicando na palavra "comentários" aqui embaixo...