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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Desculpem-me, caros leitores pela péssima qualidade do texto de hoje. (Pelo menos para mim, esse texto está péssimo.)
Já faz um bom tempo que quero escrever sobre honestidade e reputação, mas sempre que penso em escrever sobre isso, me dá uma profunda tristeza, porque tenho a mais absoluta certeza de que não fará diferença alguma além do que, acabo inevitavelmente retornando a pontos que já foram amplamente dissertados neste blog.
É desanimador ser repetitivo à toa, especialmente tendo plena consciência disso.
A bem da verdade, o que não é desanimador no mundo de hoje em que não se pode confiar em absolutamente nada nem ninguém?



Honestidade e reputação

"Eu entenderei se você perder dinheiro da minha empresa porque tomou uma decisão ruim, mas se prejudicar a reputação da minha empresa, você será demitido."
(Warren Buffett)


Lá por volta de 1992, eu tinha uma colega no colégio que me contou certa vez que sua irmã, que morava no Japão, lhe contou que sempre que ela entrava num shopping-center por lá, os sistemas de auto-falantes já avisavam que haviam brasileiros no shopping-center. Mas não era uma saudação. Era um alerta.
O motivo: a fama que o povo brasileiro tinha naquela região: "ladrão em potencial", "malandro", "trambiqueiro". Mas a desonestidade não é exclusiva do brasileiro.
Em 1998, eu tive uma namorada que me contou que uma vez a polícia veio visita-la em seu quarto de hotel (não me lembro em qual país da Europa), para revistar sua mala, pois apesar de brasileira, sua etnia asiática "levantou suspeita". No entanto, durante suas viagens pela Europa, ela teve sua bolsa roubada dentro de um museu em Paris.
Pois é... a desonestidade, infelizmente é uma constante no mundo moderno e isso não é exclusividade do Brasil.
Porém, é o povo brasileiro que tem a fama de desonesto, ladrão, trambiqueiro... Por quê?
Ora... porque no Brasil há uma estranha, porém tradicional inversão de valores em que o ato de ser desonesto não só é considerado "normal" como é incentivado, valorizado... praticamente "endeusado" pela sociedade e sob vários aspectos até mesmo pela legislação, que é feita nítidamente por gente cujos interesses não são os de fazer justiça, mas o de garantir a própria impunidade, fazendo com que a "Lei de Gerson" seja única lei realmente funcional no Brasil (admitindo-se que até a Lei de Murphy é passível de falha).
Com uma postura dessas, o brasileiro merece a má fama e os representantes que têm.
Sim, estou falando dos políticos. Eles são "a cara" do povo brasileiro e representam nítidamente e muito bem a realidade da maioria da população que os elege e portanto se identificam perfeitamente com eles. (Aí, uma minoria tipo eu, reclama através de blog ou vai para outro país.)
Se o horário eleitoral gratuíto lhe parece uma piada de mau gosto, lamento. Essa é a realidade: Temos 22570 candidatos aos cargos que podem facilmente representar os cabides de emprego mais rentáveis e intocáveis do país. Um concurso público em que o candidato não precisa fazer nenhuma prova, nem se preocupar se vai conseguir o cargo se tiver um bom rabo-preso com os líderes de seu partido/coligação e algum cara muito famoso conseguir bastante voto.
 Desses, eu "chutaria" que (com muita sorte), meia-dúzia desses candidaros realmente têm boas intenções sociais para com a sociedade ao invés de lucro pessoal (naturalmente, todos de partidos pequenos e sem dinheiro para campanha).
E quer que eu diga mais? Os piores serão os mais votados, graças ao fato conhecido de que o grau de instrução da maioria do eleitorado é extremamente baixa, mas todos são "democraticamente" obrigados a votar.
Serão os mais votados, não apenas pelo fato (que negarão até o dia do apocalipse) de que trata-se de um jogo de cartas marcadas, mas porque são os que aparecem mais na mídia, pois além de estarem em "partidos grandes", o que por sí só já têm mais tempo de mídia (particularmente, penso que seria muito mais justo se o tempo deveria ser o mesmo para todos os candidatos, independente do partido), ainda tem a questão de que estes, têm muito mais verba de campanha (boa parte paga com o nosso dinheiro) do que os "partidos pequenos", do que os que não têm o mesmo poder de atuação em mídia (que logicamente inclui especialistas em diversas áreas para maximizar o poder de persuasão).
No entanto, é fácil identificar os desonestos: basta observa-los.
Muito apelo emocional, mas nada de concreto... Muito aperto de mão, muita beijoca em criancinha carente... as candidatas mulheres, por exemplo, insistem em apelar para o mero fato de serem mulheres, como se isso fizesse alguma diferença para o cargo, e outros apelam para as comunidades religiosas, como se Deus estivesse do seu lado.
Tudo tão autêntico quanto nota de R$3,00.
Já notaram que não tem sequer um único candidato que num discurso de campanha fala em estimular o ensino crítico? Mas ao invés disso, todos eles usam chavões como "segurança", "transporte", "educação" (só técnica, para formar bastante mão-de-obra) e "empregos"?
Ora... todos esses problemas são relacionados a um único ponto chave: qualidade de educação crítica, mas nenhum candidato tem interesse nessa questão, pelo simples fato de que isso "abre muitos olhos" e um bom investimento sério nessa área, pode representar uma verdadeira catástrofe para o "governo" (leia-se "mamata").
Temas como "reforma tributária" então... são como cotucar direto na ferida!
Desvio de impostos é a principal fonte de lucro desses caras. Quanto mais impostos, taxas, contribuições e tarifas e quanto mais complicado tudo isso funciona, melhor... para eles.
Apesar de a política ser um dos maiores exemplos de desonestidade conhecidos (empatando tecnicamente com a religião), o ponto onde quero chegar, não é esse.
Quero enfatizar a conseqüência da desonestidade. Quero enfatizar a reputação.
Digamos que você compra um produto e descobre que ele é uma porcaria. Você comprará novamente um produto da mesma marca?
Talvez até compre, mas não confiará tanto quanto confiaria se tivesse a certeza de que o produto tem de fato todas as qualidades desejadas.
Uma loja... quando faz uma promoção e aí você chega no caixa, e descobre que o valor é outro... como fica a reputação da loja?
Nas relações interpessoais, é a mesma coisa!
Se alguém mente para você, como fica a reputação da pessoa que mentiu? Você confiará nela novamente?
Se alguém me perguntar quanto vale a reputação, eu diria que tem o mesmo valor da honestidade... pelo simples fato de que uma coisa é diretamente ligada a outra.
Mas por algum motivo, parece que o mundo tornou-se incapaz de fazer essa pequena ligação.
Preferem votar em candidatos claramente desonestos, compram produtos ruins, participam de tudo quanto é promoção sem pensar duas vezes, aceitam truques fiscais como o da "nota fiscal paulista", viciam-se em novelas, futebol (que também não passa de um teatro)...
...e assim constroem o "mundo melhor" para seus netos.
Tenho pena das gerações futuras.