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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Cá estou eu em casa, em outra madrugada sozinho, sem sono, comendo um lanchinho que acabei de preparar, acompanhado de um cálice de vinho enquanto copio um vídeo para um amigo meu e rastreio meu computador em busca de vírus, malware, etc. para fazer minha declaração de Imposto de Renda que como todo brasileiro que se preze, sairá em última hora (com 253 páginas de perguntas e respostas sobre como fazer, como o "governo" espera que seja diferente?)... Aliás, não tem coisa mais imbecil do que ter de declarar o que o "governo" já sabe, pois se não soubesse, não existiria a tal da "malha fina". Além disso, se vão "restituir", por quê nos tiram com antecedência então?
Falando francamente, essa atividade de ter de preencher formulários, coletar documentos, correr atrás de departamentos que não nos atendem direito, etc. lembram aquelas atividades que são colocadas aos membros de certas seitas para que seus seguidores não tenham tempo para questionar o por quê de as efetuarem.
Mas enfim... O texto de hoje é um convite à reflexão (como qualquer outro texto deste blog), sobre quem ou o quê nos tornamos ao longo de nossas vidas, uns conscientemente e outros nem tanto.
Faz muito tempo que quero publica-lo. Mas só hoje, tive vontade de faze-lo.



Entrevista com um vampiro... de verdade.
"A noite do remorso anda espreitando a vida pela porta da alma"
(Abílio Manuel de Guerra Junqueiro)


Picolo's Blog: Estamos aqui hoje com uma entrevista muito especial com um vampiro que se diz bastante irritado com as bobagens que o Cinema, a Literatura e a TV têm mostrado à respeito dos vampiros.
Conforme foi acordado para que esta entrevista se tornasse possível, ele pediu para que seu nome não fosse revelado, então optamos por nos referirmos a ele aqui como Orlok, em homenagem ao trabalho do cineasta Friedrich Wilhelm Murnau em seu filme de 1922, "Nosferatu".
Sr. Orlok, é um prazer te-lo aqui conosco pronto a nos revelar um pouco do que é ser um vampiro em tempos em que os temas ligados ao vampirismo estarem tão na moda.
Orlok: O prazer é meu. E o motivo de eu estar aqui é exatamente essa questão da "moda" sobre os vampiros. Assunto que me dá uma certa irritação já que nem de longe correspondem à realidade.
PB: Você quer dizer então que o que a Literatura, o Cinema e a Televisão nos têm mostrado sobre vampiros nos dá idéias distorcidas sobre isso!
Orlok: Com certeza! Eu até entendo que os roteiristas e escritores tenham de soltar sua imaginação e inventar um sem-número de possibilidades relacionadas aos vampiros, muitas vezes nos atribuindo "superpoderes" como podermos nos transformar em outros seres, ou sentir cheiro de sangue a vários metros de distância, mas a bem da verdade, somos muito mais semelhantes a pessoas comuns do que as pessoas imaginam.
Pois bem... Não nos alimentamos de sangue, não nos vestimos só de preto, não deixamos de viver durante o dia (embora o sol da manhã nos seja bastante irritante, principalmente para os olhos) e nem dormimos em caixões de defunto.
PB: Quer dizer então que vocês nem de longe são os "mortos-vivos" quase indestrutíveis do cinema?
Orlok: Claro que não! Somos tão frágeis quanto vocês humanos comuns. Nem imortais nós somos!
No máximo, envelhecemos um pouco mais devagar por evitarmos o sol a todo custo e procurar uma vida menos estressante.
Você não faz idéia do quanto economizo de combustível por mês andando de carro apenas de madrugada nem da tranquilidade de fazer compras enquanto cerca de 90% da população está dormindo.
PB: Se vocês vampiros são quase tão humanos quanto nós, então por que vocês têm fama de tanta coisa de ordem sobrenatural?
Orlok: Ora... porque idéias de coisas sobrenaturais vendem muito! E vivemos numa era em que tudo, absolutamente tudo é feito em função do lucro!
Olha só o que temos na TV hoje: Angel, Buffy, Blade, Moonlight... tudo série sobre vampiros, mas o tipo de vampiros que eles mostram nessas séries de TV sequer existe! São pura fantasia! De certa forma até eu me divirto vendo essas séries, pois acho ridículas as caras que os vampiros delas fazem mostrando os dentes feito animais. Ora... somos muito mais civilizados que isso!
PB: E quanto a "Dracula" de Bram Stoker?
Orlok: "Dracula" é um romance magnífico, mas de real sobre vampiros, só existe o lado romântico, ou seja, nossa vontade de estar com quem sentimos afeição. Somos muito emotivos de modo que temos de conviver com isso, tentando o tempo todo controlar nossos sentimentos.
É uma dor que pode, por analogia, se comparar à maldição do Code Dracula.
Acredite, não é fácil conviver com isso.
PB: E quanto à sua percepção? É mesmo tão aguçada como em séries tipo "Moonlight"?
Orlok: Olha... nem tanto. Eu diria que no máximo, aprendemos a observar melhor certas coisas como luzes, cores ou sons, especialmente a música, mas num lugar barulhento, fica difícil distinguir o que as pessoas estão falando.
A quantidade de múltiplos sons em desarmonia nos perturba profundamente, como perturbaria a um morcego.
PB: Quer dizer então que vocês têm de fato alguma semelhança então com os morcegos?
Orlok: Creio que só nesse ponto e no hábito de ficar acordado durante a noite.
PB: E o alho? Ele te afasta?
Orlok: Olha... pão de alho bem quentinho é gostoso, mas não gosto de muito alho não. Alho, assim como cebola, têm gosto muito forte e por isso mesmo têm de ser usados apenas como temperos. Aliás, acho que gosto bem menos de cebola do que de alho.
Esse papo de que dentes de alho afastam vampiros é pura bobagem.
Dou muita risada cada vez que vejo isso nos velhos filmes do Vincent Price.
PB: E quanto à transmutação? Como você se tornou um vampiro?
Orlok: Tá aí uma boa pergunta.
Primeiro que esse papo de transmutação não existe, embora alguma mulher possa até se apaixonar se um vampiro morder o pescoço dela com jeitinho, mas... é bom não confundir uma coisa com outra.
Ninguém se torna vampiro da noite para o dia.
Trata-se de uma formação de muitos anos, como conseqüência dos hábitos solitários de meditação ao longo de uma vida, somados à saudade de momentos que você não tem mais esperança de um dia voltar a revive-los e à tristeza de viver num mundo hostil, que marginaliza e zomba de todos os diferentes da maioria, sob qualquer ângulo de visão que seja.
PB: É uma vida solitária?
Orlok: A solidão no nosso caso, é uma escolha lógica, dadas certas circunstâncias.
PB: Você tem esperanças de um dia voltar a ser humano?
Orlok: Eu gostaria muito. Mas não posso fazer essa escolha.
Como todo vampiro, só posso fazer parte de outra vida, se fôr convidado.
PB: Isso não era com relação a espaços físicos?
Orlok: Não. Trata-se de outro espaço. Um espaço de vida.
Nós não temos vida própria. Ou ao menos, não sentimos nossa vida, enquanto não fazemos parte de outra vida.
Como eu já devo ter dito, a essência de um vampiro é o romantismo. E isso hoje em dia é facilmente confundido com "frescura", "viadagem" ou qualquer outra coisa do tipo.
Os humanos, me desculpe a franqueza, tornaram-se estúpidos demais para compreenderem esse tipo de coisa.
Os valores modernos que formam suas personalidades hoje, são meramente físicos.
E se me permite dizer, de humanos, vocês só têm o título.
PB: Isso é uma revelação bombástica! Quer dizer que sob o seu ponto de vista os vampiros hoje são criaturas mais humanas que os humanos?
Orlok: Eu não diria isso. Prefiro dizer que ainda sentimos valores que vocês deixaram de lado. Mas não os culpo.
A vida de dia os força a deixar esses valores de lado.
Vocês transformaram a competitividade, o lucro e a vantagem em relação ao próximo nos únicos valores que de fato lhes interessa e sem perceber, vocês agem como zumbís, controlados pela "moda", pela TV ou revistas... puro consumismo e nada mais.
Deveriam parar algumas horas por dia para meditar sobre isso.
Não fazem idéia do quanto de ganho de consciência de seus atos vocês ganhariam com esse gesto.
PB: Orlok, Muito obrigado por revelar-nos um pouco desse fascinante mundo dos vampiros.
Orlok: Não tem de quê, mas você não gostaria de ser um vampiro. Acredite. Não é fácil viver com isso, especialmente no mundo de hoje.

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