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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ontem completei 39 anos... trabalhando. (Vida de um cidadão típico de país pobre é isso mesmo... ou se trabalha, ou não se pagam as contas... principalmente as do "governo".)
Apesar dos cumprimentos e da comemoração (feita no dia anterior), não sinto lá muito motivo para comemorar não, já que a minha crise existencial continua a mesma.
Um homem só, não consegue mudar o mundo. No máximo, apresentar seu ponto de vista à pessoas que de repente podem dar-lhe atenção.
Recentemente, expús um "desabafo" numa comunidade de audiofilia que acabou por chamar atenção e ganhar muito apoio dos colegas e amigos audiófilos espalhados pelo Brasil, que também compartilharam do mesmo ponto de vista.
Então, resolví desenvolver a idéia do "desabafo" sob a forma de um texto no meu blog, para a posteridade...




Me devolvam o prazer de ouvir música!!!
"O passado é o CD, o presente é o pendrive e o futuro é o vinil."
(Lenine, músico)


Recentemente tenho sido bastante reconhecido como audiófilo, mas tenho essa paixão pela reprodução musical desde que me conheço por gente.
Estranhamente me lembro de quando eu era criança e rodava um disco numa tábua, fazendo as vezes de um toca-discos... Ainda hoje prefiro os discos de vinil, pela sua incrível riqueza de qualidade de som que (me desculpem os fanáticos pelas mídias digitais), continuam insuperáveis nos quesitos custo/benefício e principalmente, honestidade em vários aspectos (para não dizer todos) na entrega do sinal (desde que, os discos e os aparelhos sejam utilizados corretamente, coisa que muito pouca gente realmente sabe como fazer, já que a imensa maioria pensa que som de vinil é aquele barulho de "taquara rachada" das "vitrolinhas de plástico" de festinha de criança).
Quando nascí (há 39 anos atrás), haviam rádios que tocavam música (sim, isso um dia existiu, não tinham pregação religiosa 24 horas por dia não), haviam aparelhos valvulados aos montes, os televisores eram preto e branco e crescí vendo discos rodarem... muitos discos mesmo...
Ví o Elvis Presley na TV nos anos 70, assim como o John Lennon e a dupla Simon e Garfunkel no Central Park.
Testemunhei praticamente o nascimento da música eletrônica ao som de Kraftwerk e Jean-Michel Jarre;
Peguei parte do período do glam rock sem entender necas do que se tratava, pois ainda era muito criança, e até hoje babo com todo aquela expressividade toda do rock psicodélico do Led Zeppelin ou do Deep Purple...
Atravessei o período da disco music vendo clips do Earth Wind and Fire, Donna Summer, Boney M., Bee Gees, Commodores, Genesis;
"Viajei" nos anos 80 ao som de Queen, A-Ha, The Police, Alphaville, Scorpions, Whitesnake, Starship... o auge do Michael Jackson, da Madonna (que na época ainda cantava e era incrível nos shows), Cindy Lauper... E as sensacionais baladinhas românticas que embalavam os deliciosos bailinhos de garagem...
Cheguei nos anos 90 ouvindo Human League, Art Of Noise, New Order...
Mas passei a década de 2000 inteira praticamente só ouvindo flashback e vendo as gravadoras cada vez mais preocupadas em manter seus direitos sobre as músicas (antigas) do que efetivamente caçando e produzindo novos talentos (de verdade), produzindo amontoados de samples espremidos em batidas marcadas mixados com vozes cheias de entonação forçada e tentando empurrar pela mídia (e pelos nossos ouvidos) como se fosse música, ofendendo nossa inteligência e sensibilidade artística.
Toda a impecável produção musical, todo o esforço de estudo, prática e toda a técnica de músicos e engenheiros de som profissionais, de repente viraram algumas horas de edição via software... afinal de contas, é mais barato.
É barato pôr a "filhota" de algum dono de produtora como "intérprete" profanadora de obras sagradas ou algum DJ para fazer um "mix" enfiando um monte de sons e barulhos completametne fora de contexto além de mudar o pitch da música original, transformando uma obra de arte numa "casa da mãe joana"... sai mais barato que produzir algo realmente novo.
É barato vender arquivos em MP3 que não têm insumo algum ao invés de vender mídia gravada com esmero, com valor agregado, com fotos, letras, textos, ilustrações, arte... Lembranças de uma época, registros dos artistas.
Cada vez que ligo o rádio (quando ainda o ligo, na esperança de encontrar algo novo), sinto uma tristeza muito grande, como se algo me tivesse sido roubado.
As músicas hoje não carregam mais emoção, cuidado, dedicação, técnica.
As letras passaram a ser mensagens declamadas (se com vozes masculinas) em ritmo marcado, sem quase nenhuma variação ou (se com vozes femininas), se assemelhando a gemidos (em ritmos mais lentos) ou aos gritos (se em ritmo mais acelerado), mas nada de emoção sincera, nada que faça o ouvinte "se transportar" para o universo imaginário das ondas sonoras.
Falta a "mágica" da arte... aquela irregularidade imperceptível que transforma o som em música, algo de que se possa orgulhar de ouvir.
Um recado para as gravadoras: vocês perderam completamente o foco do seu negócio em nome da ganância, dos lucros, da desvalorização dos artistas e agora estão pagando por isso.
Como audiófilo, digo com gosto: Bem-feito pra vocês que estão falindo por causa disso!
Vocês, gravadoras, têm de produzir música antes de qualquer coisa, além de promover músicos de verdade, intérpretes sérios e grupos musicais autênticos ao invés de se concentrar em encher os bolsos torrando o investimento com advogados e ficar aí choramingando que "a pirataria isso", "a pirataria aquilo"...
Ora... Enquanto o departamento jurídico for mais importante que o estúdio, vocês continuarão nos roubando o prazer de ouvir música.
Quem vai querer comprar produto original sem qualidade nem valor agregado?
Me pergunto se alguém vai se lembrar daqui uns 20 anos de um "Eminem" ou "Slipknot" da vida.
Cadê a arte num arquivo MP3? Cadê os encartes, os textos, as letras...
Todos os dias eu rezo para que lancem algo decente na mídia... uma banda nova do mesmo naipe de um "Pink Floyd", um "AC/DC"... mas o que eu vejo e ouço? Nada de arte!
Só o comércio, puro, inexpressivo, falso, mesquinho e lamentável comércio.
Por sua ganância, gravadoras... vocês merecem mesmo falirem e mais! Que lhes surjam concorrentes que saibam caçar talentos de verdade, que saibam investir neles e que nos tragam de novo o prazer de ouvir música.

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