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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Quem esperava ver algum post novo no Picolo's Blog, certamente se decepcionou no mês de janeiro.
Mas foi por um bom motivo: inventei de colaborar com o lançamento de um site de divulgação de arte e cultura (Strix), descarregando "de cara" 5 textos nele:

Não é fácil arranjar tempo, nem inspiração para escrever... ainda mais por que não sou escritor profissional.
Nesse ritmo, o velho Picolo's Blog tende a ser "abandonado"... é a crise.




Crise

"Quando escrito em chinês a palavra crise compõe-se de dois caracteres: um representa perigo e o outro representa oportunidade."

(John Fitzgerald Kennedy)


Crise, crise, crise... Só se fala nisso.
De repente, virou desculpa pra tudo: demitir, contratar, subir preço, baixar margem de lucro, fazer "liquidação", encher a cara, suicidar-se...
Oras... crise é uma palavra que eu ouço desde criança e ela sempre existiu, graças à própria ordem máxima do capitalismo: obter lucro a qualquer preço.
E é aí, exatamente nesse "qualquer preço" é que está o verdadeiro perigo da coisa.
A tal da "crise" só existe por pura cegueira causada por objetivar a obtenção do lucro de forma imediatista, partindo para artifícios que beiram (e muitas vezes ultrapassam) a barreira entre a honestidade e a picaretagem.
E não falo só do vendedor não, mas o comprador também tem culpa nessa história, por aceitar sem questionar as ofertas que aparecem... e haja oferta!
Você caminha na rua... outdoors, cartazes e os malditos carros de som tentando a todo custo te vender alguma coisa.
Liga a TV... e só se vê produtos e serviços à venda (incluindo os programas de TV ditos "religiosos", que no final das contas só serve para "vender" idéias assim mesmo).
Se o telefone toca, lá vem algum maldito operador de telemarketing tentando te "empurrar" algum cartão de crédito goela abaixo, ou assinatura de aceso à Internet, ou pedindo dinheiro para alguma instituição de caridade que teve bastante dinheiro para contratar uma empresa de telemarketing para isso.
Sabe? A tal da "crise" ao menos serve para uma boa coisa: questionarmos a qualidade do que estamos para comprar, já que passamos a valorizar o nosso suado dinheirinho.
Outro dia passei pelo centro da cidade atrás de uma simples luminária... Em todas as lojas que fui, eu ví exatamente os mesmos modelos, exatamente das mesmas marcas.
Caramba! Onde está a idéia de "buscar diferenciais de mercado"?
Os lojistas perderam completamente a noção disso ou é impressão minha?
(Vencido pela absoluta falta de opção, mesmo em lojas especializadas, acabei comprando uma "meia-boca" mesmo até eu achar uma luminária do tipo que procuro.)
E a falta de lógica?
Se você caminhar por um supermercado, você encontra um monte.
Procure por exemplo, alguma frigideira à venda com tampa. Ou ainda tampa avulsa à venda, já que não há frigideiras com tampa à venda. (Um fato no mínimo curioso, esecialmente quando estamos falando justamente do tipo de panela mais propenso a fazer sujeira na cozinha.)
E produtos inúteis, como tampas especiais para garrafas de refrigerante. Ora... eles já não vêm com tampa?
Que tal então pacotes de batata-frita em que a embalagem custa mais caro que a ínfima quantidade de batata nela contida.
Quer outra "obra-prima" do capitalismo?
Que tal um sistema operacional (essa é demais!) vendido em 6 versões diferentes para "atender usuários com necessidades diferentes"... Ora... uma verdadeira ofensa à inteligência!
Qualquer idiota consegue perceber claramente que bastaria apenas um pacote configurável na instalação conforme as diferentes necessidades dos usuários, mas não... o coitado do lojista se vê forçado a comprar 6 lotes de pacotes de software ao invés de um para ter à venda, ou seus concorrentes fatalmente farão o mesmo.
Para o fabricante, essa safadeza é bacana... vira estatística de vendas (que pode até usar em campanha publicitária, atinge metas, etc.) mas para o usuário... além de ter o árduo trabalho de ter de ver qual lhe atende melhor pelo menor preço, ainda sofrerá com as limitações que essa confusão lhe causou além de (a pior parte) se sentir enganado por ter comprado um produto inacabado, já que a "versão consertada" já está para ser lançada menos de 1 ano depois, numa total e absoluta falta de consideração para com o consumidor que acaba tendo todos os motivos do mundo para optar pela versão pirata da próxima "versão consertada".
Mas voltando a falar da "crise", ela poderia ter sido evitada única e simplesmente com um pouquinho de visão crítica da situação. (Isso até me faz lembrar o genial curta-metragem "For The Birds" da Pixar.)
O que aconteceu foi exatatamente isso: falta de visão de que todo mundo estava indo para uma armadilha.
Olha só como a coisa começou...
Primeiro, uma grande fábrica de veículos precisava alcançar uma meta de vendas. Aí, um "gênio dos negócios" desses que faturam rios de dinheiro para fazer uma grande empresa aumentar os lucros e que quando se demitem passam o resto da vida dando palestras sobre "como ter sucesso nos negócios") lançou a idéia de que as distribuidoras pudessem vender os veículos em digamos... 50 meses, através de financiamento, claro... brilhante parceria com os bancos que são também responsáveis por emprestar o dinheiro para a produção dos veículos.
Os consumidores, no início começam a comprar os veículos aos montes, fazendo com que a fábrica não só ultrapassase as vendas como se visse na necessidade de aumentar a produção para atender a demanda, emprestando então mais dinheiro dos bancos para produzir mais para a venda.
Só que tem um detalhe que ninguém percebeu nesse jogo: o consumidor que já comprou o veículo nesse regime de financiamento, não vai comprar outro veículo pelo menos por uns 50 meses, ou seja... a fábrica fica com um monte de veículo no pátio à espera de comprador que não aparece, mas tem de pagar o banco com um dinheiro de vendas que não vem tão cedo.
Aí tem outro detalhe... as coisas são interligadas.
Exemplo... a fábrica que comprou aço para montar os veículos, não pode mais pedir dinheiro para os bancos, e nem tem mais motivos para aumentar a produção porque tem carro parado no pátio. Logo, para que comprar mais aço?
Então a siderúrgica que tinha contratado um monte de trabalhadores para produzir para a fábrica no período de alta de vendas, agora se vê forçada a demitir um monte deles... alguns que certamente compraram veículos em regime de financiamento (porque a prestação "cabia no salário") e que agora não terão mais como continuar pagando.
O mesmo acontece com os trabalhadores da fábrica e das fábricas de seus fornecedores de peças.
Aí... os bancos (que também negociam investimentos entre sí) precisam acertar suas diferenças... com um dinheiro que de repente pode não entrar no mesmo ritmo que os analistas imaginavam, aí surgem as negociações, as fusões, as "quebras"...
E voltando a falar dos trabalhadores desempregados, especialmente os que têm de pagar a prestação do financiamento, se vêm forçados a cortar custos em casa e... deixam de comprar um monte de coisa, como por exemplo, aparelhos de consumo. E aí, as lojas que estavam vendendo num determinado ritmo tiveram uma significativa queda de vendas (algumas quebrando, literalmente).
E por aí vai...
Ah... e quanto ao "gênio dos negócios" lá... ora... se demitiu rapidinho antes do barco afundar ou foi demitido (levando consigo uma indenização bem "gorda")...
Pois é... O capitalismo é assim mesmo... se uns perdem, outros ganham.
Agora... veja o curta da Pixar "For The Birds", e me diga se quem rí por último não rí melhor.
Por isso é que eu sempre digo: se "todo mundo faz isso ou aquilo", eu prefiro ser diferente.

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