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domingo, 9 de dezembro de 2007

Durante 21 anos da minha vida, trabalhei profissionalmente com produção de imagens para a mídia.
O meu envolvimento nesse meio me permitiu um ponto de vista bastante diferenciado como consumidor. Um ponto de vista que me foi apresentado pela primeira vez (pelo que me lembre) numa aula de Geografia Crítica através de um professor (prefiro não citar o nome dele aqui), a quem sou extremamente grato pela excepcional qualidade de suas aulas.
Quem dera todos tivessem um dia um Mestre como esse que tive o privilégio de ter!
Hoje, vou tentar passar um pouco desse ponto de vista.



Toda propaganda é enganosa (parte 1)

"É muito complicada a vida de um intelectual na sociedade de consumo de massa".
(Florestan Fernandes - Sociólogo e político brasileiro)

Quantas vezes você comprou alguma coisa e uns tempos depois se sentiu enganado(a), frustrado(a) porque o que comprou ficou aquém das expectativas e teve a impressão de ter jogado seu dinheiro fora?
Bom... Antes de falar sobre o tema de hoje, vamos primeiro definir e entender o que é propaganda afinal...
Propaganda é um ou vários meios de se vender produtos, serviços ou idéias através de meios de divulgação coletiva.
Observemos agora duas palavras importantes nessa definição: vender e idéias.
Ora, se estamos falando de vender alguma coisa, imediatamente temos de ter em mente o que qualquer vendededor do mundo usa em sua linguagem para essa finalidade: métodos de persuasão.
Quando se pretende vender alguma coisa, o vendedor usa de todos os meios que conhece para tentar convencer o possível comprador a comprar o produto, serviço ou idéia.
Agora vamos observar com cuidado a palavra "idéia" aqui.
Se observarmos atentamente, estamos nos referindo à palavra "valores". Em outras palavras, a propaganda também serve para persuadir o "comprador" a aceitar valores. (Estudantes de neurolinguística e hipnose sabem bem do que estou falando).
Esses valores podem ser introduzidos na divulgação de modo que o "comprador" nem perceba, mas estão lá.
Exemplo: todo comercial de cerveja mostra um mundaréu de gente feliz num bar cheio de mulheres sedutoras, transmitindo a quem vê a propaganda, a sensação de tesão, felicidade, alegria, saúde... Uma imagem bastante distante da realidade em que após consumir o produto (geralmente em grande quantidade), as pessoas ficam broxantemente vomitando no banheiro um produto conhecido pelos egípcios desde pelo menos 4000 anos A.C. como droga de fabricação caseira que causa entre outras coisas, dissociação sináptica e destruição neuronal e por isso mesmo o seu consumo foi incentivado pela Igreja durante a idade média... mas esse tipo de detalhe, é claro, pouca gente sabe hoje em dia (me lembre de escrever sobre esse assunto), já que esses valores de tesão, felicidade, alegria, saúde, etc., já vêm sendo amplamente divulgados desde a idade média e imensamente incentivados por todos os impérios e governos desde então, exatamente porque "zumbís" ficam mais fáceis de controlar do que mentes conscientes.
Agora que falamos sobre a base de como funciona a propaganda, vamos falar sobre o principal meio de divulgação coletiva atual: a televisão, mas só para não falar o óbvio e atualizar um pouco mais o tema, vamos falar do assunto latente do momento: TV digital.
Recentemente ví uma reportagem de que já não se encontram mais decodificadores para a TV digital nas lojas e que as vendas destes já se esgotaram até mesmo da "padroeira" (Rua Sta. Ifigênia e imediações, em São Paulo, SP), ou seja... as vendas e a procura por esses aparelhos está altíssima. Mas... Por quê?
O que leva as multidões a gastar dinheiro que muitas vezes não têm para ter em casa um aparelho cuja única finalidade é poder sintonizar um sinal digital de meras 720 linhas e converter para um parco sistema de 525 linhas (onde só se pode enxergar 480 por causa do overscan)?
Ora... vendeu-se a idéia de que a qualidade de imagem será assustadoramente maior e para piorar, as lojas exibem as enormes belas e caras TVs de plasma e LCD, com imagens maravilhosas produzidas especialmente para isso, sendo exibidas nestes aparelhos HDTV, mostrando toda a capacidade gráfica das 1080 linhas do "full-HD 1080p ou 1080i" provenientes de um disco HD-DVD ou Blu-Ray, sistemas de armazenamento de mídia que sequer estão padronizados ainda (já se fala no EVD, um terceiro novo sistema de armazenamento concorrente desses e no HVD, para substituir os três padrões)... bem além das 720 linhas que estão sendo usadas em uma ou outra transmissão de TV com programação de qualidade bastante questionável... (Oh, o que eu não deixo de falar para não baixar o nível de qualidade desse blog...)
Ontem, ao encontrar com um amigo da área de vídeo e comentar sobre o assunto, concluímos que neste Natal, vai ter muito consumidor frustrado achando que vai ter aquelas imagens maravilhosas num parco televisor de tubo... e olha que nem falamos na perda de precisão de cores nem na ausência de interatividade, bem como outros pormenores aqui.
Informações técnicas à parte, a depreciação de certos produtos (especialmente eletrônicos) está caindo ao longo dos anos.
O DVD, popularizado há apenas uns 6 anos já começa a dar sinais de decadência (e eu nem conseguí passar o que tinha de VHS para DVD ainda)!
Só para efeito comparativo, a fita cassette, nasceu em 1963 e só foi "substituída" pelo CD nos anos 90 (embora se façam aparelhos que toquem cassettes até hoje).
Percebe a voracidade disso? Esse tipo de fenômeno de consumo imediatista e insconsciente coletivo é chamado pela sociologia de "consumismo". E nessa época (final de ano), é impossível esse fenômeno não ser notado.
Numa era em que o capitalismo produz diariamente muito mais transistores do que grãos de arroz, é no mínimo uma boa idéia pararmos um pouco para ver melhor o que estamos consumindo (e o que estamos disperdiçando).
Enquanto estamos preocupados com nossos televisores de plasma de última geração que nem padronizada está, em algum lugar do mundo pode ter uma criança morrendo de fome, prestes a ser devorada por um abutre.

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