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domingo, 21 de outubro de 2007

Eu pensei muito antes de dar um título para este texto de hoje... Mas não havia como ser diferente.
Sexo e compromisso são duas coisas que ora se combinam, ora se separam e descrever em que condições essas coisas acontecem é bastante difícil, mesmo após um bom tempo de meditação a respeito.



Relacionamentos - parte 4: O sexo e o compromisso

"A Natureza humana não é em si, viciante."
(Gaius Cornelius Tacitus - Orador, advogado e senador romano, considerado um dos grandes historiadores da antiguidade)



Segundo a nossa tradição social de orígem européia (e concordando com a maioria das culturas do planeta), se um casal assume um "compromisso social", a sociedade entende que é normal que eles possam fazer sexo.
A maioria dessas culturas chama esse "compromisso social" de casamento. (Felizmente hoje em dia os namoros já são considerados como compromissos tão válidos quanto, em várias dessas sociedades).
Bom, nesse tipo de cultura, o que acontece então se de repente o casal não assume compromisso algum, mas resolve "experimentar" e isso passa a ser rotineiro?
Na teoria, ninguém tem nada a ver com isso. Na prática, fofoqueiros(as) em geral chamariam isso de "pouca-vergonha" ou coisa muito pior (mas adorariam estar no lugar de um dos dois lá do nosso exemplo).
Vamos acrescentar mais um elemento para piorar as coisas... E se um dos dois tem um "compromisso social" assumido com uma terceira pessoa? (Namoro, casamento, "rolo", enfim...)
Aí é um baita escândalo... Se a menina/mulher engravidar então... Aí é o fim do mundo! Quem é que vai cuidar da criança? Mãe-solteira? "Produção independente"? O pai vai assumir? Vai aparecer ou nem? Ou morre assassinado pelo outro cara? (E olha que estamos falando de uma sociedade que se julga "civilizada"!)
Agora vamos analisar o ponto de vista de outra sociedade... uma certa tribo indígena, por exemplo.
Lá, se uma (ou mais) mulheres resolverem se deitar com um homem na mesma rede numa noite fria para se "aquecer", ninguém questiona.
Na noite seguinte ela(s) podem deitar-se com outros rapazes que podem ou não aceitar isso. E novamente ninguém sequer resmunga sobre isso na aldeia. É normal.
Opa! Uma delas engravidou!? E agora? Quem é o pai? Resposta: a tribo. E é a tribo que investe para que essa criança cresça forte, saudável e educada conforme seus costumes e conhecimentos. (E agora, ô seu "civilizado"?)
Até aqui, analisamos duas sociedades com costumes bastante distintos com o intuito de mostrar o quanto os costumes de uma sociedade podem influenciar o surgimento ou não de uma relação mais íntima entre homens e mulheres. Agora analisaremos um segundo fator.
Já falamos sobre o amor no texto anterior. Mostramos que amor e felicidade são coisas bastante diferentes e que não devem ser confundidas e mostramos também que o amor é uma parte e não um todo da "felicidade plena" que não pode ser confundida com "felicidade momentânea ou temporária".
O que não falamos sobre o amor e deixamos para esse texto, é que ele é diretamente atribuído e confundido com sexo.
Ora... ninguém faz amor. Faz é sexo mesmo! Amor é um sentimento, não um ato físico ou mesmo um atributo do tipo "longo" ou "grosso" ou "duro" ou sob outro ponto de vista, "molhado", "apertado" ou "quente".
Sentimento não se define, não se mede, não se compara. Sentimento se sente e ponto final. E para sentir, é necessário viver, experimentar. Logo, para sentir o momento é necessário viver o momento, experimentar o momento. E nós, gente "civilizada" conseguimos desaprender completamente como fazer isso graças aos nossos costumes, tradições e crenças.
Vamos analisar uma situação prática pela qual certamente o(a) leitor(a) já deve ter passado...
Um homem e uma mulher gostam muito um do outro, mas um não vê o outro como "exatamente o seu número", mas resolvem "experimentar"... começam com uns beijos, gradativamente já evoluem para umas preliminares e... fato consumado.
Foi bom, gostoso... (sentiram, viveram, experimentaram) e resolvem repetir a dose mais umas duas ou três vezes e... nesse ponto um dos dois se julga apaixonado e diz que ama o outro que por sua vez, "segura a onda" e resolve dar um "basta" antes que o relacionamento tome ares mais sérios (tipo "compromisso social") ou coisa pior. Afinal, a outra parte não é "exatamente o seu número".
Essa "outra parte" naturalmente pode se sentir desprezada e sua reação pode ser imprevisível, mas fica uma dúvida... afinal, eles experimentaram, viveram, sentiram algo durante seus momentos a dois (cada um do seu jeito, óbvio), mas o que foi que sentiram? Amor? Não... Muito provavelmente não. Afinal, não eram "exatamente o número" um do outro, ambos viveram seus momentos de "felicidade momentânea ou temporária" que certamente serão lembrados, mas não alcançaram a tão buscada "felicidade plena" ou "permanente", já que não puderam dar continuidade seja pela circunstância que fôr. No exemplo citado, chamamos essa circunstância de "exatamente o seu número".
Aqui chegamos num ponto-chave: para que a relação dure, é necessário que as circunstâncias sejam favoráveis, ou seja... se não é "exatamente o seu número", que seja pelo menos "um número muito próximo" a ponto de haver alguma tolerância, ou concessão de ambas as partes para aí sim, com o tempo irem construindo, se ajustando. Porém, as circunstâncias podem nos surpreender e pôr obstáculos que aos poucos podem minar a relação. E é muito difícil acontecer de ambos perceberem que sua relação pode estar ameaçada por circunstâncias muitas vezes externas e fora de controle.
Para piorar, geralmente quem não costuma acreditar que essas circunstâncias estão fora de controle é justamente quem domina a relação. (Falaremos sobre isso num próximo texto que já começa a se formular na minha mente.)
Moral da história: A nossa sociedade "civilizada" cobra compromissos "permanentes" e acabamos nos condicionando a cobrar isso de nós mesmos. Não que isso seja errado, mas no mínimo, deveríamos ser melhor preparados para isso antes de nos lançar a novos relacionamentos para podermos pelo menos saber separar uma coisa da outra, ou seja, um relacionamento por prazer sem compromissos (também conhecido como "sexo casual") de um relacionamento "de construção", em que as experiências de vida se somam de tal forma que é impossível sequer imaginar o tipo de surpresas que podem acontecer num relacionamento desse tipo.

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