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domingo, 13 de novembro de 2005

Cara... eu adoro falar sozinho!
Podem me chamar de maluco... às vezes também penso que deve ser mesmo meio doido... também trabalhando com o tipo de coisa que eu trabalho... que diga-se de passagem, às vezes exige uma concentração que deixaria qualquer mestre de yoga simplesmente pirado.
Mas eu costumo falar sozinho mesmo, é quando pratico um dos meus hobbies... remasterização da áudio.
Adoro pegar velhas gravações da minha coleção e "limpa-las", re-equaliza-las, filtra-las "n" vezes até que fiquem do jeito que eu gosto.
É desafiador, mas muito prazeroso quando o resultado satisfaz.
Geralmente faço isso quando estou me sentindo só. Talvez por isso mesmo falo muito sozinho nessas horas.... e olha que são muitas horas... às vezes perco toda a tarde de um domingo, ou de um sábado nisso.
Geralmente só percebo o tempo que fiquei nisso por causa do estômago me obrigando a parar para me alimentar.
E de fato, um exercício de concentração... para não pensar nada. Uma fuga... talvez da mesmisse, talvez da solidão... Sei lá.
Várias vezes pensei em fazer disso uma profissão para substituir a prostituidíssima computação gráfica em que me especializei em 20 anos de experiência, mas não quero estragar esse que é um dos poucos prazeres que ainda posso curtir na vida.
Além disso, não quero ficar escravo de prazos impossíveis para esse tipo de trabalho, uma vez que apenas algumas horas de áudio digital na orelha é o suficiente para não conseguir perceber mais detalhes do som... assim sendo, uma música pode levar meses para ficar realmente legal... É comum por exemplo, não se perceber que se está usando excesso de compressão, ou perde-se a referência para equalizar a música de modo a manter a harmonia.
Os trabalhos mais difíceis são as gravações mais antigas... algumas oficialmente "inexistentes" como BB King e Jimi Hendrix tocando "Like a Rolling Stone", são achados que para mim se equiparam a achar uma obra de um Van Gogh da vida forrando um galinheiro. Essa gravação por exemplo, certamente foi gravada em fita cassette na década de 60 durante algum ensaio... acho que essa realmente vai me dar trabalho por meses... mas não me importo. Afinal, poderei dizer que sou um dos poucos no mundo a ter essa gravação remasterizada... e certamente bem mais nítida que a gravação do cassette original.
Os trabalhos de remasterização mais tranqüilos são de músicas da década de 80... parecia haver um cuidado especial na gravação original das mesmas, somado à inacreditável onda criativa provinda da década de 60 e às tecnologias de áudio e música eletrônica dos anos 80.
Nos anos 90, esse impulso criativo começou a se perder em função das vontades gananciosas das gravadoras num lamentável prejuízo artístico... enfim... nunca se vendeu tanto flashback quanto agora, né?
Imagino quantos grandes talentos sequer arriscaram se enveredar pela música... Quantas canções, sons novos, batidas emocionantes, solos virtuosos deixaram de ser revelados aos nossos ouvidos nos últimos 15-20 anos?
Remasterizando esses flashbacks, tenho me deparado com sons que na época, eu não percebia... detalhes embora perdidos no tempo, que talvez significassem a razão de sua "magia"...
A forma como os sons eram explorados era outra... havia espaço para transportar a imaginação e "viajar" entre as ondas... Hoje, ao ouvir esses sons, é como estar lá de novo, vendo outros detalhes das mesmas paisagens.
Incrível como a música consegue fazer nossa imaginação viajar no tempo!
E é uma pena que é só a imaginação.

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