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sábado, 12 de março de 2005

A alguns anos estamos falando de ignorância aqui nesse blog.
Sinceramente, não me importo se os meus apontamentos aqui irão me abrir ou fechar portas... sobretudo na minha carreira profissional, que de tão ingrata, pouco me importo se vou ou não continuar nela.
Na verdade, nem me preocupo mais em investir o meu tempo e principalmente o meu dinheiro, sendo que com isso só encontrarei mais e mais insatisfação pessoal com o negócio...
Desde 1983 me interesso por informática e desde 1985 estudo e trabalho quase que exclusivamente com computação gráfica, ou seja... são exatamente 20 anos de chão. E nesses 20 anos de chão, 12 apenas de pré-impressão e produção gráfica. Nesses 12 anos, se há uma coisa que sempre me deixou muito irritado é uma questão que por mais científico que você seja, mesmo que você tenha a solução absolutamente correta e de acordo com os mais rigorosos padrões da indústria gráfica do mundo, sempre haverão questões de ordem absolutamente subjetiva que definirão a escolha, compra e definição dos "padrões" de cores a serem utilizados nos trabalhos.
Já estou cansado de ver softwares que prometem "milagrosas cores exatas" e "consistência de cores do início ao fim dos processos", de freqüentar incontáveis palestras onde se falam um monte de besteiras que nem sabem do que se trata com o único intuito de vender produtos "maravilhosos" que infelizmente sempre convencem nossos patrões e clientes de que "aquilo" é a solução, porque é "moderno", "atual", o "futuro"... quando na verdade não passam de reedições de velhas histórias da carochinha.
Não me venham falar de um novo software gerador de profiles ICC... ou de alguma impressora nova com 16 cartuchos de tinta (cada dia eles inventam mais um cartucho de tinta para vender)... já experimentei as "soluções" do ColorTune, Colortron, Kodak Digital Science, ColorSync (já fui representante da Apple, inclusive), Best Color/EFI Calibrator... enfim... e nenhum desses sistemas conseguiu superar um problema sério que eu prefiro chamar de "fator humano".
Esse "fator humano" pode ser decisão do patrão em comprar um sistema de prova de cor "milagroso" porque ele ouve que o mercado está aderindo ao novo sistema (mesmo que você não tenha como descobrir com precisão o que vai sair daquela droga, porque a empresa que vendeu a "geringonça" a preparou para simular o padrão que só ela - fora uma ou outra empresa para quem ela vende seus serviços- usa ao invés de simular um padrão internacional da indústria adotado oficialmente pelo país onde você se situa), seja porque algum cliente tem medo do que poderá sair dessa "geringonça" (e com razão, pois cliente não é bobo e percebe que há algo "cheirando mal" na história), seja porque o idiota aqui não tenha o mínimo de poder para enfrentar esses dois lados e dizer que ambos deveriam parar para questionar se a "geringonça" realmente funciona como deve ou ambos entraram num barco furado.
Estou cansado de tentar sozinho mostrar para a indústria local que existem padrões rigorosos de pré-impressão utilizados nos países desenvolvidos, mas que no Brasil continua-se batendo na tecla do "achismo".
Estou cansado de pegar textos porcamente traduzidos de originais americanos (que nem usam os mesmos tipos de tinta que as gráficas daqui usam, nem têm a mesma luz que um país tropical como o nosso tem, e portanto, não terão nunca as mesmas cores naturais que nós temos).
Estou cansado de tentar provar que aqui se usa as normas CIE (D65) e não ANSI (D50) para RGB ou qualquer coisa com ponto branco diferente de 6500 graus Kelvin e gama 1.8 (a não ser em vídeo, que ainda se baseia no antigo padrão "M" de 9300 graus Kelvin e gamma 2.2).
Estou cansado de explicar que no Brasil, a tinta usada nas gráficas têm cromaticidade de acordo com a escala definida pela EURO (comissão aparentemente "dissolvida" em ECI, ERA e FOGRA) e não SWOP ou TOYO e por isso mesmo têm características que precisam ser observadas.
Estou cansado de ler apostilas cheias de "furos" como a atual ONS-27 (edição 1.0), que especifica valores absurdos para total de limite de tinta, sendo que a norma EURO especifica rigorosamente "entre 260% e 280%" ao invés dos altamente tolerantes 220% a 400% descritos na ONS-27... descritos aliás, para tentar agradar gregos e troianos de todo o Mercosul (e assim vender seu "peixe") ao invés de definir um padrão sério e rigoroso como se faz em certos países que sabem diferenciar melhor o profissional especializado do "fução". Aliás, "fução" é o que não falta nessa indústria aqui no Brasil. (Não me surpreende a ABNT ter adotado essa tal de ONS-27... o teclado ABNT já foi tema aqui mesmo nesse blog a um bom tempo... lembra? Porque um teclado ABNT era diferente de outro ABNT e depois de mais de 20 anos "inventaram" o teclado ABNT-2???)
Nem sei se vale a pena perder o meu tempo tentando apresentar esses pontos à ABTG... Detesto ter de brigar contra o orgulho dessa gente (não querendo desmerecer seus diplomas e certificados).
Já vi muito "peso pesado"... "gente grande"... "ISO9000", etc. se gabando de seus títulos, seu tamanho e escondendo suas falhas, sem entender por exemplo por que na gráfica o resultado sai tão mais "escuro" e "carregado" que nas provas que vendem... aliás as gráficas não seguem padrões também... os impressores agem muito mais artisticamente do que tecnicamente tentando desesperadamente "imitar" as provas que enviam junto com o fotolito ao invés de fazerem como os italianos que ignoram as provas e seguem os padrões oficiais da idústria que encomendou o serviço. (Foi assim que descobri a cerca de 10 anos como funcionavam esses "padrões internacionais" e me esforcei para segui-los o mais rigidamente possível... e a cerca de 8 anos depois de implementados esses padrões, nunca mais tive problemas significativos de reprodução de cores em gráfica).
Francamente, estou cansado dessa indústria de faz-de-conta, de "adivinhação", de "palpite"...
Como escrevi a pouco, não me importo com a repercussão desse texto. O que eu quero mesmo, é sair desse inferno.
Estou cansado de ser formiga em manada de elefantes gordos e estúpidos.
Estou cansado de me matar inutilmente enquanto ganham-se montanhas de dinheiro vendendo "milagres" e "soluções"...
O que eu quero é outra vida. (Embora nos últimos 8 anos eu nunca tenha perdido uma discussão técnica a respeito.)

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